Sem diálogo direto com a Casa Branca, governo tenta adiar cobrança de 50% sobre produtos brasileiros e mobiliza setor privado para conter prejuízos
Com a entrada em vigor da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos prevista para o dia 1º de agosto, o governo federal ainda não conseguiu avançar em um acordo com a gestão do presidente Donald Trump. A sobretaxa, anunciada no início do mês, preocupa setores da indústria e do agronegócio, que já estimam prejuízos bilionários.
A principal dificuldade enfrentada pelo Brasil é a ausência de interlocução direta com a Casa Branca. Até agora, o único contato de alto escalão foi uma conversa de 50 minutos entre o vice-presidente Geraldo Alckmin e o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reconheceu que o diálogo com o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, está restrito ao nível técnico.
O Planalto avalia que os canais de comunicação com Washington estão obstruídos por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e, por isso, trabalha com a possibilidade de solicitar um adiamento da tarifa por 60 a 90 dias. A alegação será de que há mercadorias brasileiras a caminho dos EUA, o que colocaria em risco contratos em andamento. Internamente, porém, admite-se que as chances de o pedido ser aceito são pequenas.
Enquanto isso, o setor produtivo, incluindo representantes da indústria, do agronegócio e até de big techs americanas, já participou de mais de 100 reuniões com o comitê interministerial brasileiro criado para responder à medida. Empresários também articulam viagens aos Estados Unidos para negociar diretamente com autoridades locais, mesmo sem apoio formal do governo brasileiro.
Apesar do tom duro de algumas declarações do presidente Lula, o governo descarta adotar medidas de reciprocidade no momento. A avaliação é de que isso poderia agravar ainda mais os prejuízos, considerando a dependência brasileira de tecnologias e insumos norte-americanos.

Em meio às dificuldades, um setor que vislumbra uma possível solução é o mineral. Na última semana, representantes do Brasil e dos EUA discutiram um possível acordo sobre minerais críticos, insumos estratégicos para a indústria tecnológica, que podem receber tratamento diferenciado no contexto do tarifaço. A iniciativa é vista como parte dos esforços norte-americanos para reduzir sua dependência da China nesse segmento.
Enquanto isso, uma comitiva de senadores brasileiros embarca nesta sexta-feira (25) para Washington, em busca de interlocução com congressistas norte-americanos. As reuniões ocorrem entre os dias 28 e 30 de julho e são vistas como uma das últimas chances de abrir um canal político antes da entrada em vigor da tarifa.


