Um estudo recente revelou a existência de uma linhagem indígena inédita que ocupou a região central da Argentina por aproximadamente 8.500 anos. Mesmo diante de mudanças ambientais extremas e intensos contatos culturais, esse grupo conseguiu manter uma continuidade genética considerada rara.
Os resultados foram publicados na revista Nature, a partir da análise de DNA de 238 indivíduos que viveram no território argentino nos últimos dez milênios. Segundo os pesquisadores, o achado amplia o entendimento sobre o povoamento do Cone Sul.
O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade Harvard, em parceria com arqueólogos argentinos. A equipe buscava justamente preencher lacunas sobre a ocupação pré-histórica do centro do país, área onde culturas como Ayampitín e Pampas já eram conhecidas, mas ainda pouco compreendidas geneticamente.
Descoberta começou em 2017
O avanço ocorreu a partir da análise de 29 esqueletos encontrados na província de Córdoba ao longo de décadas. Entre 2017 e 2023, novas escavações e revisões ampliaram o material disponível: 344 fragmentos ósseos de 130 indivíduos, distribuídos por 133 sítios arqueológicos.
Após sequenciar e filtrar os dados, a equipe identificou uma linhagem que permaneceu ativa entre 8.500 e 4.000 anos atrás, com presença contínua especialmente na região de Jesús María. Essa população se manteve geneticamente isolada por milênios, mesmo diante de interações com outros grupos.
A partir de 4.000 anos atrás, vestígios dessa linhagem passam a diminuir, possivelmente devido à chegada de novos grupos e mudanças culturais mais intensas.
O que a pesquisa revela
Ao comparar os dados com genomas de outras regiões do Cone Sul, a equipe identificou três linhagens amplas: uma presente no norte da Argentina, outra ligada à Patagônia e a terceira, agora descrita, exclusiva do centro do país.
Essa linhagem central demonstrou características marcantes:
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Resistiu a períodos de secas prolongadas;
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Manteve práticas culturais próprias por milênios;
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Apresentou estabilidade genética mesmo com rotas de migração próximas;
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Sobreviveu em ambientes diversos, como planícies, serras e áreas fluviais.
Pesquisadores destacam que a persistência desse grupo desafia modelos clássicos que previam substituições populacionais completas ao longo do Holoceno.
Como viviam esses povos?
A diversidade ambiental da região sugere modos de vida variados: caçadores-coletores em áreas serranas, grupos pescadores em regiões fluviais e comunidades adaptadas ao clima seco das planícies.
Há cerca de 1.600 anos, evidências mostram que povos das serras de Córdoba começaram a cultivar plantas, enquanto populações vizinhas mantinham modos tradicionais.
Apesar da continuidade, há indícios de contatos frequentes entre grupos distintos, inclusive trocas culturais sem substituição biológica.
Uma história mais complexa da ocupação das Américas
Segundo os autores, a descoberta reforça a ideia de que a história populacional do continente é muito mais diversa do que se imaginava. Em vez de ondas simples de migração e substituição, o que ocorreu foram múltiplas linhagens coexistindo, trocando práticas e resistindo de maneiras diferentes às mudanças ambientais.
Além disso, o estudo aponta que certas expressões culturais e diferenças linguísticas observadas na região podem ter raízes profundas nessas populações isoladas.
Os pesquisadores afirmam que novas análises estão em curso para identificar outras linhagens ainda pouco documentadas na América do Sul. A expectativa é que novas descobertas ajudem a preencher lacunas sobre como povos antigos se adaptaram e sobreviveram por milhares de anos.


