Trocadilho entre “jeans” e “genes” é apontado como problemático por especialistas, reacendendo debates sobre racismo, padrões estéticos e publicidade sexualizada
A nova campanha publicitária da atriz Sydney Sweeney para a marca American Eagle, lançada em 23 de julho, tem gerado polêmica nas redes sociais e na imprensa internacional. O slogan da ação, “Sydney Sweeney Has Great Jeans” (em tradução livre, “Sydney Sweeney tem ótimos jeans”) virou alvo de críticas por conter um trocadilho que mistura os termos “jeans” (calça) e “genes” (genética), sugerindo, segundo especialistas, uma mensagem de cunho eugenista e racista.
Nos vídeos promocionais, a atriz, conhecida por seu papel em Euphoria, aparece vestindo os jeans da marca e faz a seguinte afirmação:
“Os genes são transmitidos de pais para filhos, muitas vezes determinando características como cor do cabelo, personalidade e até mesmo a cor dos olhos. Meu jeans é azul.” Em seguida, uma voz ao fundo completa com o slogan: “Sydney Sweeney tem jeans ótimos”.

A fala foi vista como uma romantização da genética associada a padrões estéticos eurocêntricos. Sweeney é loira, branca e de olhos claros, características que, combinadas ao tom da propaganda, levantaram acusações de reforço à ideia de superioridade genética.
A médica e professora da Universidade de Columbia, Sayantani DasGupta, criticou a campanha duramente. “Essa peça está embutida de mensagem eugenista. Propagandas não vendem só produtos, vendem noções de beleza, amor, desejo, corpos. Uma mulher racializada dificilmente teria sido escolhida para protagonizar essa campanha”, afirmou.
A eugenia, definida como uma pseudociência que propõe a “melhoria genética da espécie humana”, já foi utilizada como base para práticas discriminatórias, racistas e coloniais. O próprio National Human Genome Research Institute descreve a teoria como “imprecisa e profundamente enraizada em preconceitos históricos”.
Além disso, a campanha também foi comparada ao polêmico anúncio da Calvin Klein, estrelado por Brooke Shields em 1991, quando tinha apenas 15 anos. Na época, a atriz dizia: “Quer saber o que há entre eu e meus jeans? Nada.” Especialistas apontam que, ao flertar com a sensualidade como ferramenta de venda, a American Eagle estaria repetindo fórmulas antigas e controversas da publicidade.
A consultora cultural Rachel Lowenstein afirmou à Vanity Fair que a marca recorre à velha máxima de que “sexo vende” mesmo em um momento no qual o público tem demonstrado maior sensibilidade sobre mensagens problemáticas. Ainda assim, a estratégia parece ter dado retorno financeiro: após o lançamento, as ações da American Eagle subiram 10%, agregando cerca de US$ 200 milhões (mais de R$ 1 bilhão) ao valor da empresa.
Até o momento, nem a atriz nem a marca se manifestaram oficialmente sobre as críticas. No entanto, uma publicação no LinkedIn de Asheley Schapiro, vice-presidente de Marketing da American Eagle, indicou que a abordagem foi discutida previamente com Sweeney. “Perguntamos: ‘Até onde você quer ir?’ E ela deu um sorriso e respondeu: ‘Vamos, eu topo’”, relatou a executiva.
A repercussão acende um alerta sobre os limites éticos da publicidade e os impactos de se recorrer a padrões de beleza excludentes e mensagens ambíguas em campanhas de grande alcance.


