Um novo relatório do Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI) aponta que o governo chinês está utilizando tecnologias avançadas de inteligência artificial para intensificar a vigilância e o controle social sobre os seus 1,4 bilhão de cidadãos. As ferramentas, segundo o estudo, estão mais sofisticadas e integradas ao cotidiano, desde prever protestos até monitorar o humor de detentos.
A China já possui um histórico robusto de monitoramento digital, como o Grande Firewall, sistema que restringe o acesso à internet global, e a vasta rede de câmeras espalhadas por áreas urbanas. Mas, de acordo com o relatório, a IA está tornando esse aparato “mais eficiente, intrusivo e preditivo”.
Segundo Nathan Attrill, coautor do documento, “a IA permite que o Partido Comunista Chinês monitore mais pessoas, com mais precisão e menos esforço”. O instituto, financiado parcialmente pelo governo australiano, afirma que a tecnologia se tornou a espinha dorsal de um modelo moderno de controle autoritário.
Expansão da vigilância e ambições tecnológicas
A China tem investido bilhões de dólares em negócios ligados à IA, ao mesmo tempo em que enfrenta restrições impostas pelos EUA para o acesso a chips avançados. Mesmo assim, o país avançou rapidamente na pesquisa e na adoção dessas tecnologias.
A população também demonstra forte entusiasmo com o tema. Uma pesquisa global da Ipsos, em 2024, revelou que os chineses estão entre os mais otimistas sobre o impacto da IA no futuro.
O próprio líder chinês, Xi Jinping, reforça publicamente a importância da tecnologia como parte da estratégia nacional de governança digital. Para especialistas citados no relatório, isso significa, na prática, fortalecer o controle do regime sobre o fluxo de informações e sobre atividades consideradas sensíveis.
IA no sistema de segurança e justiça
A integração da inteligência artificial ao sistema de justiça criminal está avançando rapidamente. O país tem uma das maiores redes de vigilância do mundo, com cerca de 600 milhões de câmeras, muitas delas equipadas com reconhecimento facial e recursos de rastreamento.
Entre os exemplos citados:
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Em Xangai, câmeras e drones com IA já são usados para detectar automaticamente aglomerações e acionar autoridades.
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A Suprema Corte da China orientou tribunais a implementar sistemas de IA até 2025.
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Ferramentas em teste podem recomendar se um suspeito deve ser preso, solto ou receber pena suspensa.
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“Prisões inteligentes” monitoram comportamento e expressões faciais de detentos, alertando guardas caso haja sinais de estresse ou agressividade.
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Centros de reabilitação usam terapias com realidade virtual assistidas por IA.
O relatório alerta que um suspeito poderia ser vigiado, denunciado, julgado e até reabilitado com base em decisões tomadas por sistemas automatizados, um cenário considerado preocupante por especialistas em direitos humanos.
Risco ampliado para minorias e dissidentes
Grupos já vulneráveis, como uigures, tibetanos e dissidentes políticos, podem ser ainda mais afetados. Empresas chinesas estão desenvolvendo modelos de IA treinados em línguas minoritárias, permitindo monitorar com maior precisão o que essas comunidades publicam, conversam e consomem.
Essas ferramentas também poderiam ser usadas para manipular o acesso à informação entre essas populações.
O papel das big techs chinesas
O relatório destaca ainda a atuação das grandes empresas de tecnologia do país, como ByteDance, Tencent e Baidu, classificando-as como “peças-chave” na execução das políticas de censura do governo.
Entre os exemplos:
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ByteDance modera e censura conteúdos politicamente sensíveis no Douyin (versão chinesa do TikTok).
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Tencent utiliza IA para monitorar o comportamento dos usuários e atribuir “pontuações de risco”.
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Baidu vende ferramentas de moderação automatizada e já colaborou em mais de 100 investigações criminais.
Essas plataformas também usam algoritmos de recomendação e análise de sentimentos para reduzir a visibilidade de críticas e impulsionar conteúdos alinhados ao governo.
Impacto global
O relatório alerta que o ecossistema chinês de vigilância por IA se tornou uma referência internacional, sendo adotado por outros países autoritários, como Irã e Arábia Saudita. Como muitos modelos chineses são de código aberto, acabam sendo amplamente utilizados por sua praticidade e baixo custo.
No entanto, especialistas afirmam que junto com a tecnologia, outros países importam também a lógica de censura, vigilância e controle que acompanha esses sistemas.


