Segundo levantamento do Disque 100, mais de 80% dos casos de abuso sexual contra menores acontecem dentro do próprio lar da vítima.
O Amazonas registrou 197 casos de estupro de vulnerável nos três primeiros meses de 2025, um aumento de quase 4% em relação ao mesmo período de 2024. Os dados revelam um cenário alarmante: a maioria das agressões ocorre dentro de casa, e os agressores são, frequentemente, familiares ou pessoas próximas da vítima.
Segundo levantamento do Disque 100, mais de 80% dos casos de abuso sexual contra menores acontecem dentro do próprio lar da vítima. O Atlas da Violência, divulgado este mês, confirma a tendência: entre crianças de 0 a 4 anos, 67,8% das agressões ocorrem em casa; na faixa de 5 a 14 anos, o índice é de 65,9%.
Além disso, a violência familiar é a forma mais recorrente de agressão em todas as idades. Os números de violência não letal – incluindo abusos sexuais, negligência e agressões físicas e psicológicas — também seguem em alta. Em 2023, o Brasil registrou 26.259 casos apenas entre crianças de 5 a 14 anos, segundo dados preliminares do Sinan/MS.
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Caso recente em Manaus: escola vira refúgio para vítima
Um exemplo recente dessa realidade chocante aconteceu em Manaus, onde uma adolescente de 16 anos encontrou na escola a coragem para denunciar os abusos que sofria. Durante uma atividade de redação, a jovem revelou que era violentada sexualmente pelo próprio pai desde os 14 anos.
No texto, ela descreveu os episódios que ocorriam todas as noites, após a irmã dormir, e incluiu um desenho ilustrando a violência. No final, escreveu: “Eu não quero viver esse sofrimento que ele faz todas as noites comigo.”
A direção da escola, localizada no bairro Colônia Antônio Aleixo, acionou imediatamente o Conselho Tutelar, que tomou as medidas necessárias para proteger a adolescente.
“Lamentavelmente, recebemos uma denúncia muito forte. Uma adolescente escreveu uma carta informando que estava sendo abusada sexualmente pelo próprio pai – aquele que deveria proteger, que deveria cuidar, era exatamente quem fazia o oposto”, afirmou o conselheiro tutelar Marcos Lima.
Casos como esse destacam a importância de dar voz às vítimas, como explica Juliana Tuma, titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca).
“Se não se sente seguro para contar dentro da sua casa, conte para um adulto de confiança, procure alguém na escola. Tenha em si aquela confiança de que será protegido. E se alguém te pedir segredo, pedindo pra esconder, conte — não existe segredo entre adulto e criança”, reforçou Tuma.
Onde denunciar?
- Disque 100 (Direitos Humanos);
- Conselho Tutelar da região;
- Delegacias especializadas (como a Depca, em Manaus);
- Disque Denúncia (181).
Quebrar o silêncio é o primeiro passo para proteger crianças e adolescentes. Se testemunhar ou desconfiar de abusos, denuncie.


