A dificuldade de lembrar fatos e acontecimentos é um dos sinais mais conhecidos do Alzheimer. Mas, para muitas famílias, o momento mais doloroso da doença costuma ser quando o paciente deixa de reconhecer rostos familiares, cônjuges, filhos ou amigos próximos.
Agora, uma pesquisa da Escola de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, oferece pistas concretas sobre por que isso acontece.
O estudo, publicado em outubro na revista Alzheimer’s & Dementia, aponta que a perda da chamada memória social, responsável pelo reconhecimento de pessoas próximas, está associada à deterioração de estruturas chamadas redes perineuronais (PNN). Essas redes formam uma espécie de proteção ao redor de neurônios essenciais para a identificação de indivíduos com os quais o paciente tem vínculo.
O que os pesquisadores descobriram
Em experimentos com camundongos modelo de Alzheimer (5XFAD), os cientistas perceberam que, por volta dos seis meses de idade, equivalente ao estágio inicial da doença, as PNN começaram a se romper em uma região específica do hipocampo conhecida como CA2, reconhecida por seu papel central na memória social.
Com o desgaste dessas redes, os animais passaram a não diferenciar mais indivíduos conhecidos de estranhos, comportamento típico de quem perde essa forma de memória.
Os pesquisadores também observaram que o processo de degradação das PNN estava associado ao aumento de metaloproteinases de matriz (MMPs), enzimas capazes de “quebrar” as malhas protetoras ao redor dos neurônios.
Bloquear a degradação pode preservar memórias
Em uma segunda etapa do estudo, a equipe administrou inibidores das MMPs nos animais. O resultado chamou atenção:
as redes perineuronais foram preservadas por mais tempo, e a perda da memória social diminuiu de forma significativa.
Essa descoberta abre caminhos para novas abordagens terapêuticas. Diferentemente dos tratamentos atuais, que se concentram no combate às placas de beta-amiloide e aos emaranhados de proteína tau, as PNN representam um alvo estrutural e funcional totalmente novo.
Por que essa proteção é tão importante?
As redes perineuronais ajudam a estabilizar sinapses, as conexões entre neurônios, e participam diretamente da regulação da plasticidade cerebral. Quando se desgastam, os neurônios ficam mais vulneráveis e perdem eficiência na comunicação.
No Alzheimer, isso significa que áreas responsáveis pela memória afetiva e social passam a funcionar com menos integridade, dificultando que o paciente reconheça rostos, associe nomes, ou até compreenda o vínculo emocional com uma pessoa amada.
Para familiares, esse costuma ser um dos impactos emocionais mais difíceis da doença.
O que ainda falta entender
Embora os resultados sejam promissores, os cientistas ressaltam que o estudo ainda está em fase pré-clínica, ou seja, realizado apenas em modelos animais.
Transformar essa descoberta em uma terapia segura para humanos exigirá testes longos, rigorosos e várias etapas de validação.
Mesmo assim, a identificação de um mecanismo tão específico para a perda da memória social representa um avanço importante na compreensão do Alzheimer e pode orientar o desenvolvimento de intervenções capazes de proteger o reconhecimento afetivo, uma das capacidades mais preciosas da vida humana.


