Descoberta mostra que células tumorais estabelecem sinapses com o sistema nervoso e abre caminho para novas terapias
Pesquisadores identificaram que o câncer de pulmão de pequenas células (CPPC) consegue estabelecer conexões diretas com neurônios, utilizando a própria rede nervosa do corpo para acelerar seu crescimento e potencializar a metástase. O estudo foi publicado na última quarta-feira (10/9) na revista Nature e pode mudar a forma como a doença é tratada.
Até então, esse tipo de interação entre células cancerígenas e neurônios havia sido observado apenas em tumores cerebrais, formados no próprio sistema nervoso. A nova descoberta mostra que o CPPC consegue se infiltrar nos circuitos do organismo e utilizá-los em benefício próprio.
“Nosso estudo revela a extensão alarmante com que o organismo pode se comunicar e nutrir um tumor, apoiando seu crescimento como se fosse um tecido saudável”, afirma Filippo Beleggia, coordenador da pesquisa na Universidade de Colônia (Alemanha).
Tumor usa sinapses a seu favor
Os cientistas analisaram dados genéticos, imagens laboratoriais e experimentos em animais. Eles observaram que o CPPC consegue formar sinapses com neurônios, utilizando neurotransmissores como glutamato e GABA para estimular sua multiplicação.
Segundo Matteo Bergami, também da Universidade de Colônia, o resultado surpreendeu:
“Fiquei impressionado com a quantidade de inervações que essas células conseguem formar. Isso pode ser transformador para impedir a metástase cerebral desse tipo de câncer”.
Nos testes, os tumores cresceram mais rápido quando estavam próximos de neurônios sensoriais e corticais, indicando que não apenas interagem, mas também aproveitam os recursos dessas conexões para se expandir.
“É possível que as células não estejam apenas ‘conversando’ com os neurônios, mas também extraindo deles o que precisam para sobreviver e crescer”
Sugere a pesquisadora Elisa Motori, do Instituto de Bioquímica da mesma universidade.
Novas estratégias de tratamento
Os cientistas também testaram a interrupção dessa comunicação. Em camundongos, ao bloquear o glutamato, os tumores diminuíram e os animais viveram por mais tempo.
“Mostramos que a interrupção farmacológica entre o câncer e os neurônios melhora o controle do tumor e que esse tipo de tratamento pode ser associado à quimioterapia”
Explica Christian Reinhardt, do Centro de Câncer da Alemanha Ocidental.
A descoberta abre caminho para duas frentes: o desenvolvimento de novas terapias que bloqueiem as sinapses tumorais e o possível reaproveitamento de medicamentos já existentes, como anticonvulsivantes que inibem neurotransmissores.
O próximo passo da equipe é entender em detalhe como essas conexões são formadas, o que pode tornar os tratamentos contra o câncer de pulmão de pequenas células mais eficazes no futuro.


