Duas mortes e dez intoxicações em São Paulo levantam suspeita sobre ligação entre facção e falsificação de bebidas
A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) divulgou neste domingo (28) uma nota em que aponta a suspeita de que o metanol utilizado na adulteração de bebidas alcoólicas possa ser o mesmo importado ilegalmente pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudes no setor de combustíveis.
Segundo a entidade, o fechamento recente de distribuidoras e formuladoras ligadas à facção paulista pode ter levado à revenda clandestina do produto para destilarias ilegais e quadrilhas de falsificação de bebidas.
Mortes e casos de intoxicação
A Secretaria de Saúde de São Paulo confirmou duas mortes por ingestão de bebidas contaminadas com metanol, uma na capital e outra em São Bernardo do Campo. Outros dez casos estão em investigação, todos também na capital paulista.
Entre os sintomas relatados pelas vítimas estão visão turva, náusea, dor de cabeça, convulsões e, em casos mais graves, coma e cegueira. Em um dos episódios, um homem de 54 anos morreu após ingerir bebida adulterada em um bar; outro caso envolveu um homem de 38 anos, em São Bernardo do Campo. Há ainda pacientes internados em estado grave, alguns com risco de sequelas permanentes.
Como o metanol chega ao mercado ilegal
De acordo com investigações recentes, o metanol entrava no Brasil pelo Porto de Paranaguá (PR) com documentos falsos que indicavam uso industrial legítimo. Porém, o produto era desviado para postos de combustíveis da Grande São Paulo e outras regiões, com participação de motoristas e intermediários.
Após a maior operação contra o crime organizado no país, deflagrada no último mês, diversas distribuidoras ligadas ao PCC tiveram atividades suspensas. A ABCF suspeita que, com tanques cheios e sem poder operar, parte do estoque de metanol pode ter sido repassada a falsificadores de bebidas, ampliando os riscos à população.
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Risco à saúde
O metanol é um líquido incolor, inflamável e altamente tóxico. No organismo, ele se transforma em formaldeído e ácido fórmico, compostos que podem causar falência renal e hepática, cegueira e até a morte. A ingestão de cerca de 80 gramas pode ser letal se não houver tratamento imediato.
Medidas do governo
O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) emitiu recomendação urgente a bares, restaurantes, casas noturnas, mercados e plataformas de delivery para reforçar o controle de procedência das bebidas.
Entre as orientações estão:
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Isolar e interromper a venda de lotes suspeitos;
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Comunicar imediatamente Vigilância Sanitária, Polícia Civil e Procon;
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Encaminhar clientes com sintomas de intoxicação para atendimento médico urgente;
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Desconfiar de indícios de falsificação, como preços muito baixos, rótulos mal impressos e lacres violados.
Prejuízos bilionários
Segundo o anuário da falsificação da ABCF de 2025, o setor de bebidas foi o mais afetado pelo mercado ilegal no último ano. As perdas chegaram a R$ 88 bilhões, sendo R$ 29 bilhões em sonegação fiscal e R$ 59 bilhões em faturamento perdido pela indústria.
A associação também defende a retomada do sistema de rastreabilidade Sicobe, que foi desativado em 2016. Para a entidade, apenas com esse controle será possível reduzir o impacto do crime organizado no setor e proteger a saúde da população.
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