Laudo do IML aponta hemorragia interna como causa da morte e destaca que embalsamamento na Indonésia comprometeu análises mais precisas
O Instituto Médico Legal (IML) do Rio de Janeiro finalizou, nesta semana, a segunda autópsia no corpo da brasileira Juliana Marins, que faleceu durante uma escalada no Monte Rinjani, na Indonésia. O laudo, divulgado com exclusividade pela TV Globo, apontou que o embalsamamento realizado antes do translado ao Brasil comprometeu análises periciais mais detalhadas.
De acordo com os especialistas, o procedimento feito ainda na Indonésia dificultou a identificação do momento exato da morte, além de limitar a observação de aspectos clínicos importantes, como sinais de hipotermia, desidratação ou violência sexual.
Juliana sofreu uma queda no dia 21 de junho, por volta das 6h da manhã (horário local), o que corresponde às 19h do dia anterior, no horário de Brasília. O corpo foi localizado somente quatro dias depois, após extensas buscas com drones e equipes terrestres. A cada dia, a vítima era encontrada em locais mais profundos: primeiro a 200 metros, depois a 400, e finalmente entre 500 e 600 metros de profundidade, indicando múltiplas quedas.
Causa da morte e limitações da perícia
O laudo brasileiro concluiu que a publicitária morreu em decorrência de uma hemorragia interna provocada por múltiplos traumas, especialmente fraturas na pelve, crânio e tórax. Também foram observadas lesões musculares e ressecamento nos olhos, mas os médicos não conseguiram afirmar se fatores ambientais, como o frio ou o esgotamento físico, agravaram o quadro.
Embora não tenha sido possível determinar com precisão a hora da morte, os legistas estimam que Juliana pode ter permanecido viva por até 15 minutos após o impacto que causou os ferimentos letais, passando por um breve período de dor, estresse físico e emocional.
Ainda que escoriações e marcas na pele tenham sido notadas, os peritos não encontraram indícios claros de violência física ou sexual. Segundo o G1, exames genéticos adicionais ainda estão em andamento.

O corpo de Juliana Marins desembarcando no Rio de Janeiro em 1º de julho.
Análise feita na Indonésia
O primeiro laudo, realizado no dia 26 de junho em Bali, também concluiu que Juliana faleceu em consequência de traumatismo contundente, com lesões extensas que causaram danos internos e sangramentos graves. O médico legista Ida Bagus Alit explicou que não havia sinais de que a morte tenha ocorrido horas ou dias após o acidente.
Para Alit, a ausência de certas reações fisiológicas, como hérnia cerebral ou retração de órgãos, sugere que a brasileira morreu rapidamente após os ferimentos, provavelmente dentro de 20 minutos após a queda. No entanto, o especialista destacou que a estimativa é imprecisa, devido às condições do transporte do corpo em freezer e à distância entre a montanha e o centro médico.
Cronologia do acidente
Juliana caiu em uma das trilhas do Monte Rinjani na manhã do dia 21 de junho. Poucas horas depois, foi vista ainda com movimentos, sentada na encosta, por meio de imagens captadas por drones de turistas. Inicialmente, os socorristas estimaram que ela havia caído cerca de 200 metros, mas ao chegarem ao local, a vítima já não estava mais visível.
Somente no dia 23 de junho ela foi localizada novamente, por drones operados por equipes de resgate, agora a cerca de 500 metros de profundidade, presa em uma área rochosa. No dia seguinte, os socorristas conseguiram se aproximar e confirmaram o óbito. O resgate do corpo foi finalizado apenas em 25 de junho, atrasado por condições climáticas adversas e pelo terreno acidentado.
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Governador indonésio admite falhas no resgate de Juliana Marins e promete reforçar segurança em trilhas
Críticas à operação e segurança precária
A tragédia gerou comoção tanto no Brasil quanto na Indonésia. Usuários de redes sociais criticaram a lentidão no resgate, e a família de Juliana acusa as autoridades locais de negligência, sinalizando que pretende entrar na Justiça.
Especialistas locais, como os alpinistas Galih Donikara e Ang Asep Sherpa, apontaram falhas graves na estrutura de segurança do Monte Rinjani. Eles defendem a instalação de barreiras físicas, sinalizações adequadas, policiamento em pontos de risco e treinamentos periódicos para guias e socorristas.
Segundo Galih, é necessário criar um manual de operações emergenciais adaptado aos riscos específicos da montanha. Já Asep destacou que muitos acidentes envolvem alpinistas iniciantes, mal preparados fisicamente e com equipamentos inadequados, influenciados pelas imagens idealizadas nas redes sociais.
Resposta das autoridades do parque
O chefe do Parque Nacional de Rinjani, Yarman Wasur, afirmou que foram adotadas medidas de segurança recentes, como a instalação de cordas, escadas e câmeras de vigilância, além da exigência de guia obrigatório para grupos de turistas. Após a morte de Marins, Wasur prometeu revisar toda a infraestrutura e aumentar a presença de agentes em áreas de risco.
Apesar da trilha até o pico do monte, conhecida como Letra E, ser considerada de alto grau de dificuldade, não há restrição para alpinistas iniciantes. O local exige esforço físico intenso, atenção constante e pode ser traiçoeiro durante neblina, ventos fortes ou chuvas.
O organizador de trilhas Mustaal, experiente em escaladas no Rinjani, reforçou que o ponto onde Juliana caiu é extremamente perigoso, com inclinação acentuada e pouca visibilidade no fim da tarde. Ele também alertou que muitos acidentes acontecem quando escaladores se distraem para tirar fotos ou subestimam a dificuldade do percurso.
Mustaal concluiu dizendo que, embora a escalada seja possível para todos, é essencial respeitar os protocolos de segurança, estar em boas condições físicas e contar com suporte profissional qualificado.


