A Polícia Federal apura se o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, utilizou recursos desviados de aposentadorias para estruturar empresas e tentar fechar contratos milionários com o Ministério da Saúde.
Segundo as investigações, o lobista tentou negociar medicamentos à base de cannabis, testes rápidos de dengue e produtos de nutrição infantil, mas nenhuma das propostas avançou. As tentativas ocorreram entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025.
As informações constam em mensagens de WhatsApp obtidas pela reportagem e que estão sob análise da PF no âmbito da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025, que revelou o esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Na decisão que autorizou novas fases da operação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, afirmou que o Ministério da Saúde passou a ser uma “nova possível área de atuação da organização criminosa” e determinou que a Anvisa apure eventuais irregularidades administrativas.
Tentativa de venda de canabidiol
Uma das empresas ligadas ao lobista, a World Cannabis, chegou a elaborar uma minuta de Termo de Referência (TR) prevendo a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo Ministério da Saúde, por meio de dispensa de licitação.
As mensagens indicam que o documento foi produzido por funcionários do lobista com a intenção de ser entregue pronto ao ministério, direcionando a compra para empresas específicas. No mercado, cada frasco custa entre R$ 400 e R$ 900, o que poderia resultar em um contrato de alto valor.
Apesar disso, o Ministério da Saúde negou qualquer negociação, afirmando que não compra nem fornece canabidiol e que o produto não está incorporado ao SUS.
Testes rápidos de dengue
Em janeiro de 2025, o foco do lobista passou a ser a venda de testes rápidos de dengue. Mensagens mostram que ele se reuniu com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger.
Novamente, foi elaborada uma minuta de TR sem licitação, desta vez direcionando a compra para testes fabricados pela empresa chinesa Alltest, com previsão de entrega durante o pico da doença, entre março e abril de 2025.
Embora uma nota técnica do ministério tenha recomendado o uso de testes da mesma fabricante, a pasta informou que os produtos já haviam sido adquiridos anteriormente, por meio de licitação aberta em 2024, vencida por empresa sem ligação com o lobista.
O Ministério da Saúde afirmou que receber representantes do setor é uma prática institucional, e que não houve qualquer desdobramento comercial das reuniões.
Nutrição infantil e parceria com estatal goiana
Em outra frente, o Careca firmou parceria com uma empresa de alimentos para tentar fornecer produtos de nutrição infantil ao ministério, por meio da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).
A proposta envolvia transferência de tecnologia dentro do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL). No entanto, segundo o ministério, a documentação foi analisada e reprovada em agosto de 2025.
A empresa parceira afirmou que o lobista possuía, à época, reputação consolidada no setor público, mas ressaltou que não houve pagamento e que o acordo previa cláusulas anticorrupção, que encerrariam a parceria caso o projeto avançasse.
Investigação em andamento
A PF investiga se o lobista utilizou recursos desviados do INSS para financiar essas articulações, incluindo a elaboração de documentos técnicos, reuniões institucionais e possíveis tentativas de direcionamento de contratos públicos.
Até o momento, nenhuma das propostas resultou em contrato firmado, segundo o Ministério da Saúde.


