Uma substância promissora no combate ao câncer, descoberta no fundo do mar, pode dar um novo passo rumo aos testes em humanos. Pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveram uma estratégia que “empacota” a molécula em nanopartículas, tornando possível sua aplicação em tratamentos experimentais.
A substância, chamada seriniquinona, já havia demonstrado potencial para combater infecções fúngicas e o melanoma, considerado um dos tipos mais agressivos de câncer de pele. No entanto, havia um obstáculo importante: ela não se dissolvia bem em água, o que dificultava sua administração em organismos vivos.
Molécula vem de bactéria marinha
A seriniquinona foi isolada a partir de uma bactéria marinha do gênero Serinicoccus. Desde sua descoberta, cientistas investigam suas propriedades na busca por novas terapias contra doenças graves.
Os primeiros estudos mostraram que a molécula tem ação seletiva contra células tumorais, especialmente em estágios iniciais de pesquisa. Porém, antes de avançar para testes em animais e humanos, era necessário resolver o problema da solubilidade.
A solução encontrada pelos pesquisadores foi usar nanopartículas para transportar o composto no organismo.
Nanotecnologia permitiu avanço na pesquisa
Para tornar o medicamento viável, os cientistas criaram nanopartículas feitas de ácido poli(lático-co-glicólico), conhecido pela sigla PLGA, um material amplamente utilizado em sistemas de liberação controlada de fármacos.
Segundo os pesquisadores, o PLGA funciona como um “veículo” capaz de levar a substância até o organismo de forma controlada, permitindo que ela seja liberada gradualmente.
Essa estratégia abre novas possibilidades terapêuticas.
“Pensamos no PLGA como um sistema versátil que pode permitir a administração da seriniquinona tanto para melanoma quanto para infecções fúngicas”, explicam os autores do estudo.
Testes mostraram resultados positivos
Com a nova formulação, os pesquisadores conseguiram testar a seriniquinona em diferentes modelos experimentais, incluindo:
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Culturas de células tumorais
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Esferoides celulares (modelo tridimensional que simula tumores)
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Larvas da mariposa Galleria mellonella, utilizadas em estudos de toxicidade
Nos testes laboratoriais, a substância encapsulada conseguiu atingir células tumorais e demonstrou ação anticâncer, além de apresentar liberação controlada do medicamento no ambiente do tumor.
Outro ponto importante observado pelos cientistas foi que não foram detectados sinais de toxicidade nas larvas, um indicativo inicial de segurança biológica.
Descoberta pode abrir caminho para novos tratamentos
Os pesquisadores destacam que este é o primeiro registro do uso da seriniquinona em seres vivos, ainda em estágio experimental.
A encapsulação em nanopartículas foi considerada um passo essencial para transformar a molécula em um possível medicamento, já que permite melhorar a estabilidade e a forma de administração do composto.
A partir desse avanço, a substância poderá seguir para novas etapas de pesquisa, incluindo testes mais complexos para avaliar eficácia e segurança.
Se os resultados continuarem positivos, a seriniquinona poderá futuramente integrar uma nova geração de terapias contra o câncer e infecções fúngicas.


