Substância experimental desenvolvida pela UFRJ com base em proteína da placenta mostra resultados inéditos na recuperação de pacientes com lesões na medula espinhal
Uma proteína extraída da placenta humana pode abrir novas perspectivas no tratamento de lesões na medula espinhal, condição que costuma resultar em paraplegia (paralisia dos membros inferiores) ou tetraplegia (paralisia de braços e pernas).
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório farmacêutico Cristália, desenvolveram a polilaminina, medicamento experimental que tem apresentado resultados promissores em estudos com pacientes e animais.
A base da substância é a laminina, proteína presente no organismo desde a fase embrionária, responsável por formar uma rede tridimensional que facilita a comunicação entre os neurônios. Quando reintroduzida no corpo, a polilaminina pode estimular neurônios maduros a criarem novos axônios, fibras que conduzem impulsos elétricos, abrindo caminhos alternativos para restabelecer sinais interrompidos após o trauma.
Em lesões recentes, o efeito é de proteção imediata; em quadros crônicos, há indícios de regeneração de conexões.
Testes com pacientes
Desde 2018, oito pessoas com lesões completas na medula participaram de estudos conduzidos pela UFRJ. Cada paciente recebeu uma injeção de polilaminina diretamente na medula, em até 72 horas após o acidente. Seis sobreviveram e apresentaram diferentes níveis de recuperação motora.
O caso mais emblemático é o de Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de trânsito. Tratado 24 horas depois, começou com pequenos movimentos no pé e, após meses de fisioterapia, recuperou quase toda a mobilidade, voltando a andar e correr.
Outro destaque é a atleta de rugby Hawanna Cruz Ribeiro, que caiu de dez metros em 2017 e perdeu movimentos abaixo do pescoço. Três anos depois, recebeu o medicamento e relatou avanços importantes: recuperação parcial do tronco, melhora da sensibilidade e autonomia para retornar ao esporte de alto rendimento.
Também houve progresso em pacientes crônicos, tratados anos após o trauma. Nesses casos, os efeitos parecem estar relacionados à regeneração neuronal. Em testes com animais, a resposta foi rápida: ratos voltaram a se mover em até 24 horas após aplicação.

Caminho até os testes clínicos
A polilaminina começou a ser desenvolvida nos anos 2000, e o registro da patente levou 18 anos. Produzida a partir de placentas doadas por mulheres saudáveis, acompanhadas durante a gestação, a substância não apresentou, até o momento, reações adversas graves. Os principais eventos relatados em testes foram dores de cabeça e infecções associadas às próprias lesões, e não ao medicamento.
Apesar dos resultados animadores, especialistas pedem cautela: os testes envolveram grupos pequenos, sem comparação com placebo, e ainda não há resposta para questões fundamentais, como: quantas doses podem ser aplicadas? Os efeitos são cumulativos? As melhorias são permanentes?
O Cristália já obteve autorização da Anvisa para iniciar a fase 1 de testes clínicos, que avaliará a segurança do medicamento em um pequeno grupo de voluntários. Hospitais como o das Clínicas e a Santa Casa de São Paulo estão preparados para aplicar as primeiras doses, assim que houver liberação.
Desafios e perspectivas
Segundo especialistas, ainda não existe terapia eficaz para regenerar o tecido nervoso da medula espinhal. As principais causas de lesões incluem acidentes de trânsito, quedas e mergulhos, mas também doenças inflamatórias e degenerativas, como a esclerose múltipla.
“Não existe tratamento eficaz hoje, por isso esse estudo é tão relevante. Nenhum outro no mundo apresentou resultados tão promissores”
Afirma o neurocirurgião Marco Aurélio Brás de Lima, do Jornal Nacional.
Mesmo com os avanços, especialistas reforçam a necessidade de prudência, destacando que ainda é preciso comprovar segurança e eficácia em larga escala antes que a substância chegue à população.


