Nova plataforma digital permite diagnóstico, monitoramento e início de tratamento de forma remota
No Brasil, cerca de 10,2% dos adultos apresentam sintomas de depressão, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. Apesar disso, apenas um em cada quatro recebe algum tipo de atendimento, geralmente baseado em medicamentos e sem acompanhamento psicoterapêutico contínuo. A demanda supera a capacidade do sistema público, resultando em longas filas para consultas com psiquiatras.
Para enfrentar esse cenário, o Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), em parceria com o Hospital das Clínicas da USP, lançou o “e-Saúde Mental no SUS”: uma plataforma digital que permite diagnóstico, monitoramento e início de tratamento de transtornos como ansiedade, insônia e depressão diretamente pelo celular.
“Usar recursos digitais é uma forma de ampliar o acesso ao tratamento, pois a intervenção pode ocorrer em qualquer lugar do planeta”
Explica o psiquiatra Paulo Rossi Menezes, diretor científico do CISM. Ele destaca que a tecnologia ajuda a alcançar áreas remotas e também centros urbanos onde o deslocamento até serviços de saúde muitas vezes é inviável.
A iniciativa não substitui a atuação humana, mas potencializa o trabalho de médicos e enfermeiros, ampliando a democratização do tratamento e fortalecendo a atenção à saúde mental.
Da teoria à prática
Ao baixar o aplicativo, o usuário responde a questionários validados cientificamente que ajudam a identificar sintomas, com os dados enviados ao prontuário eletrônico do SUS. Isso permite que médicos e enfermeiros acompanhem a evolução do paciente.
O app também oferece técnicas de regulação emocional, como exercícios inspirados na terapia cognitivo-comportamental (TCC). Um modelo similar já foi testado com sucesso no Conemo (Controle Emocional), voltado a pacientes com sintomas de depressão.
Estudos clínicos realizados em São Paulo e Lima com mais de 800 participantes mostraram que, após três meses de uso, os pacientes apresentaram redução de 50% nos sintomas depressivos. O app fornece sessões curtas de 10 minutos, com atividades simples como ouvir música ou caminhar, ajudando os usuários a retomar tarefas do dia a dia.
A tecnologia não substitui o humano
Paulo Rossi reforça que a plataforma não se propõe a substituir profissionais de saúde:
“O ‘e-Saúde Mental’ não é um chatbot ou substituto de terapeuta. Ele atua como ferramenta de apoio para que o ser humano continue no centro do cuidado.”
Para casos mais graves, incluindo risco de suicídio, o app recomenda contato direto com profissionais de saúde. Ele também pode sugerir diagnósticos prováveis, indicar condutas terapêuticas e alertar para a necessidade de atendimento médico presencial.

Impacto na gestão pública
Além de ampliar o acesso, o aplicativo auxilia gestores do SUS, fornecendo dados anonimizados que geram relatórios e painéis interativos sobre saúde mental, eficiência das intervenções e desigualdades regionais no atendimento.
Segundo Rossi, a plataforma pode reduzir internações e consultas de alta complexidade, com economia estimada em até 70% para casos de transtornos mentais leves a moderados.
Um futuro próximo, mas ainda em desenvolvimento
O projeto deve ser implementado em cerca de um ano e meio, com adaptações culturais e regionais, incluindo comunidades indígenas na Amazônia. A meta é alcançar todas as regiões do país, mesmo diante da escassez de profissionais especializados.
“O objetivo é oferecer tratamento mais rápido, melhorar a qualidade de vida e reduzir o impacto social e econômico do sofrimento mental”
Conclui Rossi.


