A vacina de mRNA contra a Covid-19 pode fazer mais do que apenas prevenir infecções virais. Um estudo americano publicado na revista Nature revelou que ela também pode “reprogramar” o sistema imunológico, tornando pacientes com câncer mais responsivos à imunoterapia.
Segundo os pesquisadores, pacientes que receberam a vacina até 100 dias antes ou depois do início do tratamento com inibidores de pontos de verificação imunológicos apresentaram sobrevida global significativamente maior em comparação aos que não foram vacinados nesse período.
O sistema imunológico é naturalmente responsável por identificar e eliminar ameaças, como vírus e células cancerígenas. No entanto, alguns tumores conseguem “enganar” as defesas do corpo, evitando serem atacados. A imunoterapia tem como objetivo reverter esse processo, ajudando o organismo a reconhecer e combater o câncer.
De acordo com o estudo, as vacinas de mRNA funcionam como um “alarme” para o sistema imune, ativando respostas de interferon tipo I, células apresentadoras de antígenos e linfócitos CD8+, que passam a agir com mais eficiência contra as células tumorais.
Em termos práticos, a vacina não combate diretamente o câncer, mas “desperta” o sistema imune, criando condições mais favoráveis para que a imunoterapia atue de forma eficaz.
Nos testes realizados, pacientes com câncer de pulmão que receberam a vacina dentro do intervalo de 100 dias em relação ao início da imunoterapia apresentaram uma sobrevida média de 37 meses, contra 20 meses entre os não vacinados. Os melhores resultados foram observados em pacientes com tumores menores ou com baixa atividade imunológica prévia.
Os cientistas afirmam que, se os dados forem confirmados por ensaios clínicos randomizados, as vacinas de mRNA já existentes poderão futuramente ser consideradas parte do tratamento padrão combinado à imunoterapia em casos de câncer.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que o estudo ainda é retrospectivo e requer novas análises controladas para comprovar a relação causal entre a vacinação e o aumento da sobrevida.
Mesmo assim, a descoberta abre caminho para uma nova fronteira no tratamento oncológico, mostrando que vacinas desenvolvidas para combater vírus também podem fortalecer o corpo na luta contra o câncer.


