Cientistas identificaram um comportamento até então considerado incomum em tumores fora do cérebro: um tipo agressivo de câncer de pulmão é capaz de criar seus próprios neurônios e sinapses, estruturas responsáveis pela transmissão de impulsos elétricos no sistema nervoso.
A descoberta foi apresentada em dois estudos publicados simultaneamente por grupos de pesquisa da Alemanha e dos Estados Unidos, que analisaram o câncer de pulmão de pequenas células (SCLC, na sigla em inglês). Segundo os pesquisadores, o tumor constrói uma rede neural funcional dentro do pulmão, reutilizando esse sistema para estimular sua própria expansão.
Esse tipo de atividade neural já havia sido observado em gliomas, tumores cerebrais, mas a identificação desse mecanismo fora do cérebro surpreendeu a comunidade científica.
O SCLC representa cerca de 15% de todos os casos de câncer de pulmão e é conhecido por sua alta agressividade. Estimativas indicam que a doença é responsável por aproximadamente 200 mil mortes por ano no mundo, em parte porque costuma ser diagnosticada em estágios avançados.
De acordo com os estudos, a comunicação elétrica entre os neurônios criados pelo tumor favorece seu crescimento e sobrevivência, tornando a progressão da doença ainda mais rápida.
Apesar do cenário preocupante, os pesquisadores apontam uma possível nova frente terapêutica. A hipótese é que medicamentos usados em doenças neurológicas, como epilepsia e enxaqueca severa, possam interferir nessa comunicação neural anormal, ajudando a frear o avanço do câncer.
As pesquisas reforçam a necessidade de novas abordagens no tratamento oncológico, especialmente para tumores agressivos como o SCLC, e abrem caminho para estratégias que combinem oncologia e neurologia no combate à doença.


