Muito antes dos vídeos curtos, das trends e das campanhas impulsionadas por algoritmos, uma ferramenta já tentava fazer o nome dos candidatos permanecer na cabeça dos eleitores: o jingle eleitoral.
Com melodias fáceis de memorizar, refrões repetitivos e mensagens diretas, as músicas de campanha acompanham a política brasileira há quase um século. A trajetória desse formato está diretamente ligada à popularização do rádio no Brasil, especialmente a partir das décadas de 1920 e 1930.
Um dos primeiros grandes marcos ocorreu justamente na eleição presidencial de 1930, quando a música passou a ser utilizada de maneira mais evidente como instrumento de propaganda eleitoral.
Qual foi o primeiro jingle político do Brasil?
A campanha presidencial de Júlio Prestes, que disputava a sucessão de Washington Luís, é associada ao primeiro jingle eleitoral brasileiro.
A música “Seu Julinho Vem”, composta por Francisco José Freire Júnior e interpretada por Francisco Alves, foi utilizada para promover a candidatura de Prestes.
Ele venceu a eleição, mas não chegou a assumir a Presidência. A Revolução de 1930 impediu sua posse e levou Getúlio Vargas ao poder.
No ano seguinte, Vargas também ganhou uma composição política própria. “Ge-Gê (Seu Getúlio)”, escrita por Lamartine Babo, tornou-se outro exemplo da aproximação entre música, rádio e política naquele período.
Rádio mudou a comunicação das campanhas
A primeira transmissão radiofônica realizada em território brasileiro ocorreu em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência.
Nos primeiros anos, porém, o alcance ainda era limitado e as emissoras enfrentavam restrições para veicular publicidade.
A situação começou a mudar na década seguinte. Com a expansão da radiodifusão, candidatos perceberam que uma música poderia levar nomes, números e mensagens políticas para milhares de pessoas ao mesmo tempo.
O jingle encontrou ali seu habitat perfeito: poucos segundos eram suficientes para transformar uma mensagem eleitoral em um refrão difícil de esquecer.
Getúlio Vargas ajudou a popularizar o formato
Os jingles ganharam ainda mais relevância durante a trajetória política de Getúlio Vargas, período em que o rádio se consolidou como um dos principais meios de comunicação de massa do país.
Na campanha presidencial de 1950, uma das músicas associadas à candidatura de Vargas foi “Retrato do Velho”.
A composição tornou-se um dos exemplos históricos mais conhecidos da utilização da música como instrumento de comunicação política.
Jânio Quadros e a famosa vassourinha
Dez anos depois, outro jingle entraria para a história eleitoral brasileira.
Na campanha de Jânio Quadros em 1960, a música “Varre, Varre, Vassourinha” transformou a vassoura, símbolo utilizado pelo candidato, em uma das imagens mais reconhecidas daquela eleição.
A estratégia relacionava o objeto à promessa de combater problemas da administração pública e ajudou a demonstrar o potencial dos jingles para associar uma ideia simples à identidade de um candidato.
Ditadura interrompeu crescimento das músicas eleitorais
A expansão desse tipo de propaganda sofreu uma interrupção após o golpe militar de 1964.
Com as restrições políticas e eleitorais impostas durante a ditadura, as campanhas presidenciais deixaram de ter o mesmo espaço para esse tipo de comunicação.
Os jingles voltariam a ganhar força principalmente durante o processo de redemocratização, acompanhando novamente as disputas eleitorais e as transformações dos meios de comunicação.
Da televisão para a internet
Com o passar das décadas, os jingles migraram do rádio para a televisão e, posteriormente, para a internet e as redes sociais.
Algumas campanhas produziram músicas que ultrapassaram o período eleitoral e permaneceram no imaginário popular.
Entre os exemplos mais conhecidos está “Sem Medo de Ser Feliz”, utilizada pela campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989.
Hoje, a lógica continua semelhante, embora o ambiente tenha mudado completamente. Além do horário eleitoral no rádio e na televisão, músicas políticas circulam em Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas digitais, muitas vezes em versões curtas pensadas para compartilhamento.
Com recursos de inteligência artificial cada vez mais acessíveis, produzir melodias, vozes e peças audiovisuais também se tornou mais rápido. Ainda assim, o objetivo permanece praticamente o mesmo daquele observado há décadas: criar uma mensagem simples o suficiente para ser lembrada pelo eleitor.

