O Brasil enfrenta um cenário de preocupação com a prevenção do sarampo. Apesar da recuperação do certificado de eliminação da circulação endêmica da doença, em 2024, nenhum estado brasileiro alcançou a meta de 95% de cobertura vacinal entre crianças menores de dois anos com o esquema completo de imunização.
Os dados do Ministério da Saúde mostram que a cobertura nacional com duas doses da vacina tríplice viral permanece abaixo de 80%, percentual distante do necessário para dificultar a circulação sustentada do vírus.
A situação preocupa especialistas diante do aumento de casos em outros países das Américas, especialmente em regiões próximas às fronteiras brasileiras.
Amazonas está entre as áreas de atenção
O avanço do sarampo em países vizinhos levou o Ministério da Saúde a intensificar a vigilância epidemiológica em municípios brasileiros de fronteira.
No Amazonas, a atenção está voltada principalmente para cidades da região oeste, próximas ao Peru, onde o reforço da vacinação busca reduzir o risco de entrada e disseminação do vírus.
O país vizinho já contabiliza aproximadamente 3 mil casos da doença, enquanto a Bolívia também enfrenta dificuldades para controlar a transmissão.
Embora o Brasil não registre circulação endêmica do sarampo, a entrada de pessoas infectadas vindas de outros países pode provocar surtos, especialmente em localidades com baixa cobertura vacinal.
Cobertura vacinal permanece distante da meta
O índice de 95% de vacinação é considerado fundamental para impedir que o sarampo encontre pessoas suscetíveis em número suficiente para manter cadeias de transmissão.
Entre os estados brasileiros, os maiores percentuais de cobertura registrados em 2026 estão no Paraná (86,76%), Ceará (86,69%) e Minas Gerais (86,05%).
Na outra ponta, aparecem Amapá (63,59%), Pará (67,02%), Maranhão (69,66%) e Rio de Janeiro (69,74%).
Mesmo os estados com os melhores resultados permanecem abaixo da meta estabelecida pelas autoridades sanitárias.
Segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), não basta alcançar índices elevados em nível estadual. É necessário que a proteção esteja distribuída entre municípios e comunidades, evitando a formação de grupos com grande concentração de pessoas não vacinadas.
Brasil já registra mais de 50 casos em 2026
De acordo com os dados apresentados por especialistas, o Brasil contabilizou 39 casos de sarampo em 2025. Em 2026, o número já ultrapassou 50 registros, com maior concentração no estado de São Paulo.
A situação é diferente da observada em outros países do continente. Os Estados Unidos ultrapassaram 3,6 mil casos e cinco mortes neste ano, em meio à redução da cobertura vacinal.
Canadá, México, Guatemala, Argentina, Bolívia, Peru e Paraguai também registram ocorrências da doença.
O cenário reforça a preocupação com casos importados, que podem iniciar novas cadeias de transmissão em comunidades onde a vacinação está abaixo do recomendado.
Por que o sarampo é tão perigoso?
O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, transmitida pelo ar por meio da respiração, fala, tosse ou espirros de uma pessoa infectada.
Embora seja frequentemente associado ao aparecimento de manchas vermelhas na pele, a infecção pode provocar complicações graves, como pneumonia, inflamação cerebral e até morte.
Entre os grupos mais vulneráveis estão crianças pequenas, principalmente menores de um ano, e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Os principais sintomas incluem febre alta, tosse seca, conjuntivite, mal-estar e manchas avermelhadas, que geralmente começam no rosto e se espalham pelo corpo.
Diante de sinais suspeitos, a orientação é procurar atendimento médico e informar a possibilidade de sarampo, permitindo a adoção de medidas para evitar novas transmissões.
Quem precisa tomar a vacina?
A principal forma de prevenção é a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
Conforme o Calendário Nacional de Vacinação, o esquema recomendado é:
- Aos 12 meses: primeira dose da tríplice viral.
- Aos 15 meses: segunda dose para completar o esquema infantil.
- Dos 5 aos 29 anos: duas doses documentadas para quem precisa completar a vacinação.
- Dos 30 aos 59 anos: pelo menos uma dose, conforme a recomendação de rotina.
Em situações específicas, como surtos, as autoridades de saúde podem ampliar as estratégias de imunização para outros grupos.
A proteção oferecida pela vacina é elevada: duas doses apresentam eficácia de aproximadamente 97% contra o sarampo.
Baixa vacinação aumenta risco de novos surtos
Além das dificuldades de acesso aos serviços de saúde, especialistas apontam a circulação de informações falsas sobre vacinas e a menor percepção dos riscos da doença como fatores que prejudicam a imunização.
O sarampo, que durante anos permaneceu controlado em diferentes regiões, pode voltar a provocar surtos quando o número de pessoas desprotegidas aumenta.
Para as autoridades sanitárias, manter a vacinação atualizada e ampliar a cobertura em áreas vulneráveis são medidas essenciais para preservar o controle da doença no Brasil.

