Uma bactéria conhecida por provocar infecções intestinais está despertando preocupação entre pesquisadores devido à transmissão durante relações sexuais e à crescente resistência aos antibióticos.
A Shigella, responsável pela doença chamada shigelose, pode causar diarreia intensa, febre, cólicas e até presença de sangue nas fezes. Embora seja tradicionalmente associada ao consumo de água ou alimentos contaminados, a bactéria também pode ser transmitida pelo contato sexual.
Estudos recentes nos Estados Unidos e no Reino Unido identificaram um aumento de variantes resistentes a diferentes medicamentos, dificultando o tratamento de determinadas infecções.
No Brasil, pesquisas científicas também já encontraram amostras de Shigella resistentes a múltiplos antibióticos. Entretanto, os dados disponíveis não permitem afirmar que o país esteja enfrentando o mesmo crescimento de casos associados à transmissão sexual observado no exterior.
Como a bactéria pode ser transmitida pelo sexo?
A Shigella é transmitida pela chamada via fecal-oral, quando pequenas quantidades de material fecal contaminado chegam à boca de outra pessoa.
Durante relações sexuais, isso pode acontecer em práticas que envolvam contato oral com a região anal, além do contato com mãos, objetos ou superfícies contaminadas.
A infecção pode atingir qualquer pessoa, independentemente de sua orientação sexual.
No entanto, pesquisas internacionais têm identificado a circulação de variantes resistentes especialmente entre homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens.
O risco está relacionado às formas de exposição à bactéria, e não à orientação sexual.
Resistência aumentou nos Estados Unidos
Uma análise dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) avaliou aproximadamente 17 mil amostras de Shigella, coletadas entre 2011 e 2023.
Os resultados mostraram uma mudança significativa no comportamento da bactéria.
Em 2011, nenhuma das amostras apresentava resistência aos cinco antibióticos avaliados. Em 2023, esse percentual chegou a 8,5%.
Grande parte das infecções por variantes extensivamente resistentes foi identificada em homens adultos.
Os pesquisadores também observaram casos em pessoas sem histórico recente de viagens internacionais, indicando que essas bactérias estão circulando dentro das próprias comunidades.
Reino Unido também registra avanço da resistência
No Reino Unido, um estudo liderado pela geneticista Kate Baker, da Universidade de Cambridge, identificou uma situação semelhante.
A pesquisa, publicada em julho de 2026 na revista científica The Lancet Infectious Diseases, analisou a disseminação de variantes resistentes associadas à transmissão sexual.
Segundo dados da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA), em 2025, 86% das amostras de Shigella sonnei e 94% das amostras de Shigella flexneri analisadas apresentavam resistência a antibióticos.
As duas espécies estão entre as mais frequentemente identificadas nos casos de transmissão sexual investigados no país.
Os percentuais se referem às amostras analisadas pela agência e não significam que todas as infecções pela bactéria sejam resistentes aos tratamentos disponíveis.
E no Brasil, há registros da bactéria resistente?
Sim. A presença de Shigella resistente a antibióticos já foi documentada em pesquisas brasileiras, embora os estudos disponíveis não demonstrem um aumento recente de infecções sexualmente transmitidas no país.
Em Porto Velho, Rondônia, um estudo publicado em 2008 analisou 25 amostras de Shigella identificadas em crianças com diarreia.
Os pesquisadores encontraram resistência a múltiplos antibióticos em praticamente todas as amostras avaliadas, com exceção de uma amostra de Shigella dysenteriae.
Outro levantamento, realizado no Rio Grande do Sul, analisou 152 amostras da bactéria relacionadas a surtos alimentares registrados entre 2003 e 2007.
A pesquisa identificou índices elevados de resistência a medicamentos como ampicilina e sulfametoxazol-trimetoprima, utilizados no tratamento de diferentes infecções bacterianas.
Esses resultados mostram que a resistência da Shigella não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos ou da Europa.
Entretanto, é importante destacar que os estudos brasileiros citados são históricos e investigaram principalmente infecções intestinais, sem estabelecer uma tendência atual de transmissão sexual.
Portanto, não há base nesses levantamentos para afirmar que o Brasil enfrenta um surto semelhante ao observado internacionalmente.
Por que a resistência aos antibióticos preocupa?
A resistência bacteriana ocorre quando determinados medicamentos deixam de conseguir combater o micro-organismo de maneira eficaz.
No caso da Shigella, isso pode reduzir as alternativas de tratamento, principalmente em pacientes que desenvolvem quadros mais graves.
Pesquisas anteriores conduzidas por Kate Baker e outros cientistas apontaram que até um terço dos pacientes com infecções sexualmente transmitidas precisou ser hospitalizado, com internações que duraram, em média, de quatro a cinco dias.
Nem todos os casos de shigelose exigem antibióticos. Muitas infecções podem melhorar com hidratação e cuidados de suporte, conforme avaliação médica.
Entretanto, quando o tratamento antibiótico é necessário, a identificação da resistência pode ajudar a definir qual medicamento apresenta maior possibilidade de eficácia.
O uso de antibióticos sem prescrição ou de maneira inadequada também contribui para o avanço da resistência bacteriana.
Quais são os principais sintomas da shigelose?
Os sintomas podem variar conforme a gravidade da infecção. Entre os mais frequentes estão:
- Diarreia, que pode conter sangue;
- Cólicas e dores abdominais;
- Febre;
- Náuseas e, em alguns casos, vômitos;
- Sensação de urgência para evacuar;
- Desidratação, especialmente em episódios prolongados.
Pessoas que apresentarem sangue nas fezes, febre persistente, sinais de desidratação ou diarreia intensa devem procurar atendimento médico.
Como reduzir o risco de transmissão?
A prevenção envolve medidas de higiene e cuidados durante as relações sexuais.
Entre as principais recomendações estão:
- Evitar relações sexuais durante episódios de diarreia e por pelo menos duas semanas após o fim dos sintomas;
- Utilizar preservativos e barreiras de proteção, inclusive em práticas que envolvam contato oral com a região anal;
- Higienizar as mãos e os objetos utilizados durante as relações sexuais;
- Evitar o contato da boca com materiais ou superfícies potencialmente contaminados;
- Procurar atendimento médico caso surjam sintomas compatíveis com a infecção.
Essas medidas ajudam a reduzir o risco, embora não eliminem completamente a possibilidade de transmissão.
O que os estudos indicam para a saúde pública?
O aumento da resistência da Shigella observado internacionalmente reforça a importância da vigilância epidemiológica, do diagnóstico adequado e do uso responsável de antibióticos.
No Brasil, os estudos já realizados mostram que a resistência bacteriana merece acompanhamento, mas ainda são necessários dados mais recentes e específicos para avaliar a dimensão da transmissão sexual dessas variantes.
A identificação precoce da doença e o reconhecimento das diferentes formas de transmissão são fundamentais para orientar o tratamento e evitar novos casos.

