Uma equipe de cientistas japoneses desenvolveu uma estratégia experimental que utiliza uma substância produzida pelo próprio organismo para combater células cancerígenas. A técnica busca transformar o monóxido de carbono liberado por determinados tumores em compostos tóxicos capazes de provocar danos às células doentes.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Pioneira RIKEN, no Japão, sob liderança do cientista Katsunori Tanaka, e publicado em setembro na revista científica Nature Communications.
Os resultados foram obtidos exclusivamente em experimentos laboratoriais, sem testes em animais ou seres humanos até o momento.
Como funciona a técnica?
O método parte de uma característica observada em alguns tipos de câncer: a produção de quantidades elevadas de monóxido de carbono, gás que também é gerado naturalmente pelo organismo.
Para aproveitar essa condição, os pesquisadores desenvolveram um sistema baseado em paládio, metal capaz de desencadear reações químicas na presença do gás.
A interação permite produzir uma molécula chamada fenantridinona, que pode apresentar efeitos tóxicos sobre células tumorais.
Em vez de distribuir diretamente uma substância agressiva pelo organismo, a proposta é fazer com que o composto seja produzido no próprio ambiente celular associado ao câncer.
Proteína ajuda a proteger a reação
Um dos desafios enfrentados pela equipe foi impedir que a glutationa, substância presente nas células, neutralizasse o paládio antes da reação química.
Para contornar o problema, os cientistas utilizaram albumina, uma proteína encontrada no sangue, como estrutura de proteção e transporte do composto.
A estratégia permitiu que o sistema mantivesse sua atividade nas condições avaliadas em laboratório.
Testes envolveram diferentes tipos de câncer
Os pesquisadores realizaram experimentos com células de câncer de fígado, mama, pulmão e colo do útero, além de células não cancerígenas utilizadas para comparação.
Após 48 horas, a molécula produzida pela reação foi identificada nas células tumorais, mas não nas células saudáveis analisadas.
Em uma segunda etapa, a equipe desenvolveu uma versão mais tóxica do composto. Nos testes com células de câncer de fígado, a substância foi produzida no interior das células e provocou danos.
Os cientistas também investigaram a possibilidade de a reação ocorrer na circulação sanguínea. Nas condições testadas, não foram observados os mesmos efeitos, possivelmente porque o monóxido de carbono presente no sangue permanece ligado à hemoglobina.
Descoberta ainda não representa um tratamento disponível
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que a técnica precisa passar por novas etapas de investigação.
Os próximos estudos deverão avaliar o funcionamento do método em animais, além de possíveis riscos e limitações.
Ainda não existem evidências de que a estratégia seja segura ou eficaz em pacientes com câncer. Portanto, a descoberta não representa uma cura nem um medicamento disponível para uso clínico.
A pesquisa abre uma possibilidade para o desenvolvimento de terapias que utilizem características químicas das próprias células tumorais para produzir substâncias com potencial anticanceríg

