Justiça Federal aceita denúncia contra Rubén Villar, acusado de ser o mandante do assassinato do indigenista e do jornalista britânico, mortos em 2022 no Vale do Javari
A Justiça Federal aceitou nesta segunda-feira (21) a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou réu Rubén Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, acusado de ser o mandante das mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Os assassinatos ocorreram há três anos, em junho de 2022, na Terra Indígena Vale do Javari, no interior do Amazonas.
De acordo com o MPF, Villar liderava uma organização criminosa envolvida em pesca ilegal na região e fornecia recursos como munições, embarcações e apoio logístico aos executores dos crimes. Investigações da Polícia Federal apontam que os assassinatos foram motivados pelas ações de fiscalização conduzidas por Bruno Pereira contra atividades ilegais em territórios indígenas.
A juíza federal Cristina Lazzari Souza considerou que há provas suficientes para a abertura da ação penal. Entre os elementos reunidos estão ligações telefônicas, apreensões de materiais, depoimentos e escutas autorizadas feitas dentro da cela onde Villar estava preso.
A defesa de “Colômbia” declarou que recebeu a denúncia com tranquilidade, alegando que não há provas que liguem o acusado aos crimes. Afirmou ainda que as acusações são “especulativas” e que espera a absolvição ao final do processo.
Histórico do acusado
Apesar do apelido “Colômbia”, Rubén Villar é de nacionalidade peruana. Ele foi preso inicialmente em junho de 2022 por uso de documento falso, mas acabou solto quatro meses depois por decisão da Justiça, que apontou falta de provas diretas ligando-o às mortes.
Segundo a PF, Villar chefiava um esquema de pesca predatória no Vale do Javari e tinha envolvimento com tráfico de drogas. Ele patrocinava financeiramente pescadores ilegais, que, segundo a investigação, também eram usados para esconder cocaína em meio a cargas de pescado. Em dezembro de 2022, Villar foi preso novamente por descumprir medidas cautelares e, atualmente, está em um presídio federal de segurança máxima.
O caso Bruno e Dom
Bruno Pereira e Dom Phillips desapareceram em 5 de junho de 2022 enquanto realizavam uma expedição pela Amazônia. Dom escrevia o livro “How to save the Amazon?”, e a viagem tinha como objetivo mostrar o papel dos povos indígenas na proteção da floresta. Os dois foram vistos pela última vez na comunidade São Rafael, quando seguiam de barco para Atalaia do Norte, trajeto que deveria durar cerca de duas horas.
Os restos mortais das vítimas foram encontrados em 15 de junho, enterrados em uma área de mata. A investigação apontou que Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, queimados e enterrados por seus assassinos.

Outros envolvidos
Além de “Colômbia”, outros três homens foram presos por participação direta nos crimes:
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Amarildo da Costa de Oliveira (“Pelado”): preso em flagrante em 8 de junho de 2022, com munições e por ameaçar indígenas que participavam das buscas. A polícia encontrou vestígios de sangue na lancha usada por ele.
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Oseney da Costa de Oliveira (“Dos Santos”): irmão de Amarildo, foi preso em 14 de junho, acusado de ajudar na emboscada.
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Jefferson da Silva Lima (“Pelado da Dinha”): detido em 18 de junho, teria participado diretamente das mortes e da ocultação dos corpos.
Todos respondem por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Amarildo e Jefferson seguem presos, enquanto Oseney cumpre prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Outros quatro pescadores, Eliclei Costa de Oliveira, Amarílio de Freitas Oliveira, Otávio da Costa de Oliveira e Edivaldo da Costa Oliveira, também foram denunciados por ocultação de cadáver e por envolvimento de um menor de idade na tentativa de esconder os corpos das vítimas.
A Justiça e os órgãos internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, acompanham o caso e cobram o esgotamento de todas as investigações para responsabilizar todos os envolvidos nas mortes.


