A disputa pela Presidência da República entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou uma nova frente na reta final das eleições de 2026. Além das campanhas nas ruas e nas redes sociais, os candidatos intensificaram os confrontos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com ações que envolvem denúncias de desinformação, questionamentos sobre o funcionamento das plataformas digitais e pedidos de cassação das chapas adversárias.
A movimentação ocorre a menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e levou a Justiça Eleitoral a ampliar o número de sessões destinadas à análise de processos sobre propaganda.
Entre os episódios mais recentes estão a disputa judicial envolvendo um canal de WhatsApp favorável a Lula, a denúncia do PT contra a Meta e ações apresentadas pelas duas coligações para investigar possíveis irregularidades eleitorais.
Canal de WhatsApp pró-Lula vira alvo de disputa judicial
Um dos principais embates do fim de semana envolve o canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG).
No sábado (10), a campanha de Flávio Bolsonaro solicitou ao TSE a suspensão do canal, que havia alcançado aproximadamente 3,2 milhões de seguidores em uma semana.
A coligação do senador alegou que o espaço estaria sendo utilizado para disseminar informações falsas e ataques contra o candidato do PL. Também pediu o bloqueio da conta de Janones até o encerramento do segundo turno.
No domingo (11), o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal e da conta do deputado até 25 de outubro.
A decisão também exigia informações do WhatsApp sobre as mensagens divulgadas e outros canais eventualmente administrados pela mesma conta desde 5 de outubro.
Entretanto, horas depois, o corregedor eleitoral Ricardo Villas Bôas Cueva suspendeu a determinação e autorizou o restabelecimento provisório do canal.
A controvérsia deverá ser analisada pelo plenário do tribunal.
Campanha de Flávio pede cassação da chapa de Lula
Em outra ação, apresentada na quinta-feira (8), a campanha de Flávio Bolsonaro acusou uma rede de perfis no Instagram de divulgar informações falsas ou descontextualizadas sobre suas propostas.
A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), com 196 páginas, solicita a suspensão de 32 perfis e a remoção de 221 publicações.
Entre os conteúdos questionados estão afirmações de que Flávio, caso eleito, acabaria com programas sociais e direitos trabalhistas, privatizaria o Sistema Único de Saúde (SUS) ou adotaria medidas como jornadas de trabalho de 16 horas.
Os advogados também questionam o uso de publicações colaborativas, conhecidas como collabs, que permitem a diferentes contas compartilhar uma mesma postagem e ampliar seu alcance.
Para a campanha, o recurso teria sido utilizado para potencializar a circulação de conteúdos considerados enganosos.
A ação pede ainda a identificação de responsáveis por perfis anônimos, restrições às publicações questionadas e, ao final do processo, a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin.
As acusações ainda dependem de análise judicial definitiva.
PT acusa Meta de favorecer Flávio Bolsonaro
A campanha de Lula também levou ao TSE questionamentos sobre a atuação da Meta, empresa responsável pelo Instagram e Facebook.
Segundo a coligação petista, publicações ligadas ao presidente estariam enfrentando limitações de alcance e impulsionamento, enquanto conteúdos favoráveis ao adversário teriam maior distribuição.
O PT apresentou um levantamento próprio segundo o qual Flávio Bolsonaro registrava, em média, 2,96 vezes mais engajamento que Lula, apesar de possuir 17,2% menos seguidores.
A Meta negou favorecimento político e afirmou que os problemas técnicos relatados também atingiram contas em outros países. A empresa declarou cumprir as normas eleitorais e adotar tratamento igualitário nas plataformas.
Após a representação, o ministro Marco Aurélio Bellizze Oliveira concedeu prazo de 48 horas para que a empresa apresentasse esclarecimentos.
A determinação inclui a preservação de registros de moderação, dados de publicidade e métricas, além de informações sobre possíveis diferenças no tratamento dos perfis.
O TSE também solicitou dados metodológicos à Agência Lupa e ao Instituto Democracia em Xeque.
Até o momento relatado, não havia decisão judicial concluindo que a Meta interferiu na disputa eleitoral em benefício de um candidato.
Lula também pede cassação de Flávio
Na sexta-feira (9), a coligação de Lula apresentou outra AIJE, desta vez contra a chapa formada por Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar (PL-AL).
A ação também envolve o influenciador Pablo Marçal e solicita a inelegibilidade dos investigados, sob alegações de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
Segundo a campanha petista, publicações de Marçal estariam funcionando como extensão da comunicação eleitoral de Flávio Bolsonaro.
Os advogados mencionam a participação do influenciador na equipe do senador, anunciada em setembro, e a identificação da campanha que aparecia em seu perfil.
Entre os conteúdos questionados está um vídeo com trechos de uma conversa de 2016 entre Lula e Eduardo Paes. O PT afirma que a edição alterou o contexto original para atribuir ao presidente uma declaração ofensiva aos evangélicos.
A coligação solicita, em caráter de urgência, a suspensão do perfil de Marçal no Instagram ou a restrição da distribuição de suas publicações.
A campanha de Flávio, por sua vez, afirma que Marçal é um apoiador declarado e também acusa o PT de divulgar desinformação.
TSE determina remoção de publicações dos dois lados
As disputas judiciais não se limitam aos pedidos de investigação. O tribunal também determinou a retirada de conteúdos divulgados pelas duas campanhas.
No caso de Lula, o TSE ordenou a remoção de uma peça publicitária com a frase “Se Flávio vence, você perde”, que associava uma eventual vitória do senador à perda de benefícios sociais e direitos trabalhistas.
Em análise preliminar, a Justiça Eleitoral entendeu que as afirmações não apresentavam elementos factuais mínimos para sustentá-las.
Também foi determinada a retirada de um vídeo da primeira-dama Janja com críticas ao candidato do PL.
Do outro lado, o tribunal mandou excluir três publicações com imagens produzidas por inteligência artificial que retratavam Lula em situações inexistentes e o associavam a organizações criminosas.
Em outro processo, Flávio Bolsonaro recebeu uma multa de R$ 5 mil por uma publicação que vinculava o presidente ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho.
A decisão foi tomada por maioria do colegiado. O presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, havia apresentado entendimento diferente, considerando a manifestação uma crítica política legítima.
Justiça Eleitoral amplia sessões para analisar propaganda
Com o aumento das ações envolvendo as campanhas, o TSE decidiu reforçar sua estrutura de julgamento durante a reta final do processo eleitoral.
A presidência da Corte ampliou para três sessões virtuais semanais a análise de processos relacionados à propaganda eleitoral, até a realização do segundo turno.
O ministro substituto Marco Aurélio Bellizze também foi designado para atuar como juiz auxiliar da propaganda, ao lado de Estela Aranha, André Mendonça e Kássio Nunes Marques.
As medidas buscam dar maior agilidade à avaliação de denúncias e pedidos urgentes apresentados por candidatos, partidos e coligações.
Com a votação marcada para 25 de outubro, a disputa judicial segue paralela à campanha eleitoral. Embora existam pedidos de cassação de ambos os lados, a apresentação dessas ações não significa que as irregularidades tenham sido comprovadas ou que as chapas tenham sido cassadas.

