A dimensão dos incêndios florestais no Amazonas surpreendeu representantes do governo federal durante uma vistoria aérea realizada no domingo (11). Após sobrevoar regiões atingidas pelas queimadas, o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que a situação é mais grave do que imaginava.
Durante a inspeção, a comitiva identificou diversos focos de incêndio em áreas de floresta preservada, distantes de pastagens e regiões onde o fogo costuma se espalhar a partir de atividades agropecuárias.
A constatação aumentou a preocupação das autoridades com a possibilidade de incêndios provocados intencionalmente para degradar a vegetação e facilitar o desmatamento.
Em resposta à emergência ambiental, o governo federal confirmou a mobilização de 11 aeronaves, além de reforços operacionais e humanitários.
Incêndios em áreas preservadas levantam suspeitas de ação criminosa
O sobrevoo realizado pela comitiva federal incluiu áreas afetadas na região de Autazes, no interior do Amazonas.
Segundo Capobianco, a presença de vários pontos de fogo no interior da floresta indica que o problema não se limita à propagação de incêndios iniciados em pastagens.
“Mais grave do que eu imaginava depois de fazer o sobrevoo”, declarou o representante do Ministério do Meio Ambiente.
Para ele, a localização dos focos levanta suspeitas de incêndios provocados deliberadamente, com o objetivo de comprometer a vegetação e abrir caminho para futuras atividades de desmatamento.
O secretário-executivo defendeu maior integração entre as forças de segurança e as equipes de combate às chamas, incluindo a participação da Polícia Militar na identificação de possíveis responsáveis.
A avaliação apresentada pela comitiva aponta indícios de ação humana, mas a responsabilização por crimes ambientais depende de investigação.
Governo anuncia 11 aeronaves para combater incêndios
Diante do avanço das queimadas, o governo federal anunciou o reforço da estrutura aérea utilizada no Amazonas.
A operação contará com 11 aeronaves, incluindo aviões Air Tractor, empregados no lançamento de água sobre áreas atingidas, e duas aeronaves C-390, com previsão de início das operações nesta segunda-feira (12).
Capobianco afirmou que os equipamentos e profissionais mobilizados permanecerão no estado enquanto houver focos de incêndio causando danos à população.
A estratégia envolve o combate direto às chamas, o monitoramento de áreas críticas e o apoio logístico às equipes que atuam em regiões de difícil acesso.
Antes do sobrevoo, representantes federais e estaduais participaram de reuniões no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) e na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), para alinhar as ações emergenciais.
São Paulo envia bombeiros e equipamentos ao Amazonas
O combate aos incêndios também recebeu reforço do governo de São Paulo.
Uma equipe formada por 30 profissionais, sendo 25 bombeiros militares e cinco integrantes da Defesa Civil, embarcou no domingo (11) para apoiar as operações no Amazonas.
A força-tarefa levou drones, equipamentos especializados e 11 mil litros de retardante de chamas.
Os profissionais deverão atuar em conjunto com as equipes locais na contenção do fogo e na proteção de áreas ameaçadas.
Fumaça compromete até operações aéreas em Manaus
Os efeitos das queimadas também foram sentidos durante a própria missão federal.
A decolagem da aeronave que transportava a comitiva precisou ser adiada devido à densa fumaça que cobria Manaus e reduzia as condições de visibilidade.
No domingo, a capital amazonense completou quatro dias consecutivos sob forte concentração de fumaça, com impactos na circulação de pessoas, nas atividades externas e na saúde da população.
Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), apontaram qualidade do ar classificada como péssima em Manaus e em outros cinco municípios da Região Metropolitana.
No município de Careiro, a concentração de partículas chegou a 301,2 microgramas por metro cúbico (µg/m³), segundo os registros divulgados.
A exposição à fumaça pode provocar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, além de agravar doenças como asma e bronquite, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios ou cardiovasculares.
Hospitais registram 82 atendimentos por problemas respiratórios
A crise ambiental já apresenta reflexos nos serviços de saúde.
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), foram registrados 82 atendimentos de urgência relacionados a problemas respiratórios decorrentes da fumaça entre os dias 1º e 8 de outubro.
Diante do agravamento da poluição atmosférica, a Defesa Civil emitiu alerta severo, recomendando o uso de máscaras adequadas e a redução da exposição ao ar livre.
A Prefeitura de Manaus também determinou a suspensão de atividades e eventos públicos ao ar livre no domingo (11) e nesta segunda-feira (12).
A recomendação é evitar exercícios físicos em ambientes externos enquanto persistirem os níveis elevados de poluição, manter portas e janelas fechadas nos períodos de maior concentração de fumaça e procurar atendimento médico em caso de dificuldade para respirar.
Governo federal reconhece emergência em 36 municípios
A gravidade da situação levou ao reconhecimento federal da situação de emergência em 36 municípios amazonenses, oficializado no sábado (10).
A medida permite ampliar a articulação entre os governos federal, estadual e municipais, além de facilitar o acesso a recursos destinados às ações emergenciais.
Manaus já estava em estado de atenção desde 24 de setembro.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, destacou que o enfrentamento da crise precisa ocorrer em duas frentes: o combate aos incêndios e o atendimento às populações afetadas.
Além dos equipamentos e das equipes operacionais, o governo informou que profissionais da Força Nacional do SUS já atuam no estado para reforçar a assistência à saúde.
Veja os 36 municípios em situação de emergência
A medida abrange cidades da Região Metropolitana de Manaus, do sul do Amazonas e de outras áreas do estado.
Municípios contemplados:
- Autazes
- Careiro
- Careiro da Várzea
- Iranduba
- Itacoatiara
- Itapiranga
- Manacapuru
- Manaquiri
- Manaus
- Novo Airão
- Presidente Figueiredo
- Rio Preto da Eva
- Silves
- Apuí
- Boca do Acre
- Borba
- Canutama
- Humaitá
- Lábrea
- Manicoré
- Novo Aripuanã
- Pauini
- Tapauá
- Barreirinha
- Boa Vista do Ramos
- Caapiranga
- Coari
- Eirunepé
- Envira
- Guajará
- Ipixuna
- Maués
- Nova Olinda do Norte
- Parintins
- Tefé
- Urucurituba
O reconhecimento da emergência permite que os municípios solicitem apoio para ações de resposta e assistência às comunidades atingidas.
Com a ampliação das operações, as autoridades buscam controlar os focos de incêndio, reduzir os impactos da fumaça e identificar os responsáveis por possíveis crimes ambientais.

