O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a discutir o combate ao crime organizado durante uma entrevista ao Jornal Nacional, na noite desta quinta-feira (15). O candidato à reeleição questionou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Durante a sabatina, Lula afirmou que as facções brasileiras atuam principalmente com objetivos financeiros e que o enquadramento adotado pelo governo norte-americano não seria adequado para enfrentar a criminalidade no país.
A declaração ocorreu após questionamentos sobre a posição do governo brasileiro em relação à medida dos Estados Unidos.
Lula diferencia atuação das facções do conceito de terrorismo
Ao comentar o assunto, Lula afirmou que PCC e Comando Vermelho representam uma ameaça grave à população brasileira, especialmente nas comunidades afetadas pela violência.
Entretanto, o presidente defendeu que existe uma diferença entre a atuação dessas organizações criminosas e o conceito de terrorismo utilizado pelas autoridades norte-americanas.
Durante a entrevista, Lula declarou que as facções “só querem dinheiro”, ao explicar que considera a obtenção de recursos financeiros uma das principais motivações desses grupos.
O presidente também reconheceu que as organizações podem ser percebidas como terroristas pelas populações que sofrem diretamente com suas ações.
Sua crítica se concentrou na utilização da classificação internacional como instrumento de enfrentamento ao crime organizado no Brasil.
Pesquisa aponta apoio de brasileiros à classificação
A discussão surgiu após a jornalista Renata Lo Prete mencionar uma pesquisa Datafolha realizada em junho.
Segundo o levantamento citado durante a entrevista, aproximadamente dois terços dos brasileiros concordavam, total ou parcialmente, com a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
O dado foi apresentado ao presidente como parte do debate sobre a percepção da população em relação às facções criminosas.
Lula manteve sua posição de que a classificação, por si só, não representa uma solução para o problema da violência.
Governo brasileiro teme interferência estrangeira
A posição do governo federal também envolve preocupações relacionadas à soberania nacional.
Na avaliação apresentada por Lula, o enquadramento das facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos poderia abrir espaço para iniciativas de interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil.
O presidente argumenta que o enfrentamento dessas organizações deve ocorrer por meio de medidas efetivas de segurança pública, sem comprometer a autonomia das instituições brasileiras.
A classificação de grupos criminosos como organizações terroristas envolve consequências jurídicas e políticas que podem variar conforme a legislação de cada país.
Qual é a diferença entre organização criminosa e terrorista?
No Brasil, a legislação estabelece definições específicas para organizações criminosas e atos de terrorismo.
A Lei nº 12.850/2013 trata das organizações criminosas, caracterizadas, entre outros requisitos, pela associação estruturada de pessoas para a prática de infrações penais.
Já a Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/2016) estabelece critérios próprios para a configuração de atos terroristas, incluindo finalidades e motivações previstas na legislação.
Por isso, o enquadramento jurídico de uma organização como terrorista não depende apenas da gravidade dos crimes praticados.
PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas associadas a atividades como tráfico de drogas, violência armada e disputas territoriais.
A controvérsia está relacionada à aplicação da classificação de terrorismo e às consequências jurídicas e diplomáticas dessa definição.
Declaração ocorre na reta final das eleições
A entrevista aconteceu a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
A segurança pública é um dos temas discutidos na campanha eleitoral, envolvendo propostas de combate às facções, enfrentamento ao tráfico de drogas e atuação das forças de segurança.
As declarações de Lula também ocorrem em meio ao debate sobre mudanças na legislação penal e na estrutura de segurança pública do país.
O posicionamento do presidente reforça a divergência sobre a forma de classificar juridicamente as facções e quais medidas seriam mais adequadas para combater suas atividades.

