Perder peso sem comprometer tanto a massa muscular é um dos desafios associados ao uso de medicamentos para obesidade. Uma estratégia em investigação tenta justamente atuar nessa questão ao combinar a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, com uma substância que age diretamente nos músculos.
O medicamento em estudo é o apitegromab, recentemente aprovado nos Estados Unidos para uma finalidade diferente: o tratamento da atrofia muscular espinhal (AME) em adultos e crianças a partir dos 2 anos que já utilizam uma terapia direcionada ao SMN2.
Para emagrecimento, entretanto, a situação é outra. A combinação com tirzepatida ainda está sendo pesquisada e não possui aprovação para preservar músculos durante a perda de peso.
Participantes perderam menos massa magra
O possível uso do apitegromab durante o emagrecimento foi avaliado no estudo clínico EMBRAZE, de fase 2, publicado na revista científica Nature Medicine.
A pesquisa acompanhou 102 adultos com sobrepeso ou obesidade em sete centros nos Estados Unidos. Todos utilizaram tirzepatida, mas os participantes foram divididos em dois grupos: 51 receberam também apitegromab e outros 51 receberam placebo.
Depois de 24 semanas, a redução do peso corporal foi semelhante entre os grupos. A diferença apareceu na composição do peso perdido.
Quem recebeu apitegromab apresentou, em média, 1,9 kg a menos de perda de massa magra em comparação ao grupo placebo. Os pesquisadores calcularam uma preservação relativa de 54,9% da massa magra.
Gordura representou maior parcela do peso perdido
No grupo que recebeu apenas tirzepatida e placebo, a massa magra correspondeu a aproximadamente 30,2% do peso perdido.
Entre aqueles tratados também com apitegromab, essa proporção ficou em 14,6%. Consequentemente, a gordura representou uma parcela maior da redução corporal observada nesse grupo.
Os participantes que receberam apitegromab perderam cerca de 11,2 kg no total, enquanto o grupo placebo perdeu aproximadamente 12,5 kg.
Como o apitegromab age nos músculos?
O apitegromab atua sobre a miostatina, proteína envolvida na regulação do crescimento muscular.
Ao bloquear seletivamente sua ativação, o medicamento busca favorecer a manutenção da massa muscular. Esse mecanismo é diferente do utilizado pelos tratamentos que atuam diretamente nas alterações relacionadas à atrofia muscular espinhal.
Foi justamente para a AME que a agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, aprovou em setembro o Isembyld (apitegromab-mstn). É a primeira terapia aprovada no país para a doença que atua diretamente sobre a perda muscular.
Aprovação não inclui emagrecimento
A autorização concedida pela FDA não significa que o apitegromab esteja liberado para ser combinado com Mounjaro ou outros medicamentos para obesidade.
O estudo EMBRAZE é uma pesquisa de fase 2 e envolveu um número relativamente pequeno de participantes durante um período de 24 semanas.
Além disso, a pesquisa foi financiada pela Scholar Rock, empresa responsável pelo desenvolvimento do apitegromab. O estudo relata que funcionários da companhia participaram do desenho, coleta, análise e interpretação dos dados.
Os eventos adversos ocorreram em 76% dos participantes que receberam apitegromab e em 71% daqueles que receberam placebo. Eventos adversos graves foram registrados em uma pessoa de cada grupo.
Os resultados, portanto, apresentam uma possível estratégia para preservar massa magra durante o emagrecimento farmacológico, mas estudos maiores e mais longos ainda são necessários para determinar os benefícios, riscos e eventual aplicação clínica dessa combinação.

