O avanço da cheia dos rios no Amazonas voltou a expor a fragilidade da infraestrutura sanitária nos municípios do interior do estado. Com a rápida subida das águas, cresce o risco de contaminação da água consumida por comunidades ribeirinhas e indígenas, além do isolamento de milhares de famílias.
Segundo a Defesa Civil, 16 municípios amazonenses já estão em situação de emergência devido aos impactos da cheia.
Especialista em Saneamento Básico, Governança e Inovação Pública, o engenheiro civil Marcellus Campêlo alertou para a necessidade de investimentos permanentes em infraestrutura e tecnologias voltadas à realidade amazônica.
“A realidade da Amazônia exige soluções específicas para comunidades isoladas e municípios afetados pelas enchentes todos os anos”, afirmou.
Campêlo, que esteve à frente da Sedurb e da UGPE por mais de sete anos, destacou que o agravamento das mudanças climáticas torna urgente a ampliação de políticas públicas voltadas à segurança hídrica, drenagem urbana e tratamento de esgoto.
Entre as iniciativas destacadas por ele está a criação da Microrregião de Saneamento Básico (MRSB), instituída em janeiro de 2025, permitindo uma gestão compartilhada do saneamento entre o estado e os municípios do interior.
Segundo o engenheiro, programas desenvolvidos no Amazonas já demonstram resultados positivos no enfrentamento dos problemas estruturais históricos do estado.
Maués e Parintins receberam investimentos em saneamento
Em Maués, o Programa de Saneamento Integrado (Prosai) ampliou em 50% a cobertura de esgotamento sanitário e aumentou a capacidade de armazenamento de água de 227 mil litros para 1,7 milhão de litros, passando a atender toda a população urbana.
Já em Parintins, o programa iniciou a implantação da rede de esgoto e solucionou problemas relacionados à contaminação dos poços que abasteciam o município.
“O desafio do saneamento no interior não passa apenas pela execução de obras, mas pela criação de projetos permanentes capazes de integrar abastecimento de água, drenagem urbana e adaptação climática”, destacou Campêlo.
O especialista também ressaltou que levar água tratada e saneamento básico às comunidades significa reduzir doenças, melhorar a qualidade de vida e fortalecer o desenvolvimento local.
Projeto utiliza garrafas PET na construção de moradias
Entre as soluções apontadas está o projeto Amazonas EcoLar, iniciativa do Governo do Estado que utilizará resíduos plásticos reciclados, como garrafas PET, para construir unidades habitacionais em Manaus.
Outra ação destacada foi a ampliação do programa Água Boa, desenvolvido pela Cosama em parceria com a Defesa Civil.
O projeto utiliza filtros simplificados adaptados à realidade amazônica para transformar água de rios, lagos e igarapés em água potável para comunidades isoladas.
Dados da Cosama apontam que mais de 800 sistemas já foram implantados em 55 municípios, beneficiando mais de 270 mil pessoas.
Além da instalação dos sistemas, também foram distribuídos:
- Caixas d’água
- Filtros domésticos
- Kits purificadores
Segundo Marcellus Campêlo, o próximo desafio é ampliar as políticas de saneamento e fortalecer os municípios mais afetados pelas cheias.
“O Água Boa mostrou que é possível levar água tratada para comunidades distantes com soluções adaptadas à realidade de cada região”, ressaltou.
Entre 2019 e 2026, Sedurb e UGPE realizaram mais de 400 obras em todo o Amazonas, gerando mais de 200 mil empregos diretos e indiretos, segundo dados apresentados pelo ex-secretário.


